O poder “executário”

Espero jamais sentir o drama de um regime autoriário como nos vinte e um anos de ditadura militar, mas não precisa ter vivido nos anos 80 para ter a certeza de que a transição democrática preservou o conservadorismo do povo de forma quase intacta. Prova disso é a escolha, a cada quatro anos, de legisladores cada vez mais radicais, e no campo do entretenimento, programas de televisão que mostram a ação das polícias militares de estados do sul e sudeste nos quais a cena se repete independente de qual seja a região. A proposta é pegar o embalo dos reality shows, e nada mais normal do que o telespectador esperar ansioso para o soldado prender o bandido, mas a torcida ofusca uma análise reflexiva sobre como funciona uma voz de prisão ou uma “mera” abordagem.

Principalmente na cidade de São Paulo, o policial militar não se limita a sua autoridade executiva, mas em todos os casos que assisti até agora ele faz questão de julgar os criminosos por meio de lições de moral com frases feitas e humilhação verbal, já que em frente as câmeras os famosos tapões e “telefones” podem dar o que falar nesse mundo cheio de comunas golpistas. O procedimento é tão naturalmente aceito e absorvido que a mensagem é transmitida como se os poderosos de uniforme quisessem ajudar os infratores, mesmo que de noite, já em casa, comentem em uma matéria genérica do Estado de São Paulo que lugar de vagabundo é na vala. O direito de permanecer em silencio quando pego em flagrante por exemplo é quase sempre considerado uma afronta a autoridade.

Os deputados da família Bolsonaro, da qual faz parte o recém eleito Eduardo graças a absurda lei do coeficiente eleitoral, esbravejam que quanto pior a prisão, melhor para o tal do cidadão de bem. São representantes da extrema direita celebrando a falência do sistema carcerário. Os defensores da sonhada intervenção militar esquecem porém que alguns desses condenados, esquecidos em gigantescas fortalezas lotadas de mortos-vivos, eventualmente sobrevivem e saem pós-graduados em atrocidades, mesmo aqueles que cumpriram penas relativamente curtas por crimes não violentos. Longe de reeducar e ressocializar, a penitenciárias hoje são exemplares escolas do crime. Se algum país com menores ambições estruturais como Uruguai ou Argentina buscarem parâmetros no rico vizinho de proporções continentais sabem ao menos o que não deve ser feito.

 

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