Tudo gourmet?!!

Depois de aparecer numa novela qualquer da globo em meados dos anos 90, o delicioso sanduíche de mortadela do mercadão de São Paulo foi elevado a símbolo-mor da gastronomia paulistana, o que de certa forma teve um lado positivo ao quebrar preconceitos. Os preços, porém, dispararam* a medida que consumidores seduzidos pelo glamour global aceitavam pagar mais e mais. É o primeiro indício de gourmetização que tenho lembranca, apenas um marco pessoal, e que com certeza não foi a gota d’água que despertou esse pandemônio todo de privilégios culinários. Aparementemente estamos acostumados a exclusividades tão absurdas que a tendência tornou-se gostar do que é injustamente hipervalorizado. No futebol e no teatro sempre foi comum pagar uma quantia maior por lugares privilegiados, mas na música temos a perversa pista vip, como se não bastasse o valor dos já custosos ingressos para setores padrões. Afinal, não existem e sempre existiram os pomposos camarotes?

Esses precendentes levam a exageros incríveis, com o perdão da redundância, já que hoje é possível pagar R$30 numa pipoca com curry ou o mesmo preço por um café expresso com um brigadeiro. Adaptar tendências em outros países faz parte de um importante processo de diversidade cultural e agrega valor a empreendimentos com dificuldades em inovar entre vários benefícios, mas quando o nosso velho complexo de vira-lata nos lembra de achar que tudo que vem de fora é melhor, então fica muito fácil acreditar no mito de que se é caro, é bom: o mais fútil dos elitismos. Enfim, é para comer ou para o instagram? Quando restaurantes transformam-se em bistrôs, carrinhos de lanche “evoluem” para food-trucks e mercearias tornam-se empórios, alguns consumidores elevam seus egos a tamanha arrogância que realmente acreditam não haver ninguém mais capaz de desfrutar dessa exclusividade de forma tão cool.

Mesmo que hoje chefs tenham virado celebridades, alguns brilhantemente inclusive, o interesse pela inovação culinária deve ser apreciado por meio da simplicidade, e não pelo pedantismo de quem consome porque pode pagar. Ao usar ingredientes frescos, bem apresentados e, claro, se é saboroso, o prato não precisa ser caro para ser bom. A gourmetização deturpou alguns conceitos de tal forma que hoje comida é status, e ainda há quem reclama quando ela se torna acessível. Num contexto tão desigual, deveria ser básica a premissa de que tudo que for supervalorizado deve ter qualidade, mas nem tudo que tenha qualidade deva ser desproporcionalmente inflacionado. É injusto associar a efêmera política econômica de incentivo ao consumo de bens duráveis a essa futilidade, mas sinalizar o status recorrendo a ostentação de alimentos (!) revela um quê de tão supérfluo que a falsa lógica meritocrata parece estar enraizada nos exibidos de maneira quase irreversível. Menos fotos de comida, menos arrogância e mais diálogo sobre o que realmente importa, por favor.

*Hoje em dia o preço do sanduíche de mortadela não é hipervalorizado, porque alguns vêm com 400g, pesados na sua frente, de muito recheio. Custa em média R$14

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