Toma lá, dá cá, Excelência.

Há algum tempo Eike Batista fez a previsão de que a OGX chegaria ao mesmo valor de mercado da Petrobrás. Seria um exagero dizer que esse prognóstico tende a se confirmar mesmo em meio a crise na qual a estatal se encontra e esse comentário foi feito por Carlos Alberto Sardenberg em tom jocoso durante seu programa na rádio CBN. Assim como é muito cedo para a situação cantar vitória e tirar proveito do reestabelecimento das relações diplomáticas entre Cuba e EUA, justificando o financiamento do Porto Mariel como algo inquestionável a partir da eventual criação de uma zona econômica especial na ilha, a oposição também não tem o direito de torcer para que a Petrobrás afunde mais a cada denúncia. Qualquer deslize cometido por um adversário político parece ser secretamente comemorado, até os que afetam imediatamente a população, e a troca de acusações é feita via imprensa até o assunto esfriar, de forma que dificilmente se chega as vias de fato por meio de investigações formais. A cultura do toma lá dá cá está de enraizada a tal ponto que é possível notar certa conivência com essa prática.

Mesmo nas diretrizes comerciais dos maiores impérios de comunicação, que se submetem progressivamente aos interesses de seus anunciantes, na próprio jornalismo são evidentes os indícios de clientelismo. Essa herança perigosa permeia o ambiente político de tal maneira que a soberania popular é considerado algo secundário, e sem interação com liderancas locais é impossível que o legislslativo atenda a demandas de comunidades, não obstante, falar sobre voto distrital é algo que soa como um grande choque de realidades no atual cenário. A fama sobre a personalidade pouco combativa do brasileiro, o que nos leva a “dar um jeito”, é algo que contribui para a manutenção dessa lógica retrógrada da troca de favores. Fica claro o comportamento do cidadão como um consumidor, portanto, esperando benefícios diretos e imediatos em vez de sequer lembrar de uma parcela significativa da população em situação degradante e desumana.

A formação de blocos parlamentares e principalmente de coligações tem se mostrado algo diretamente ligado ao loteamento de cargos, portanto, é rara aquela articulação que busca um real bem comum, e independência parlamentar passou a servir como disfarce para a vingança de membros instatisfeitos da base aliada, confirmando que nenhum apoio é de graça e que a maior moeda de troca de qualquer governo é uma posição em que se tenha amplos poderes. Parece óbvio que governar com o respaldo do povo vai além de simplesmente ser eleito pela maioria, mas a ideologia partidária é algo tão frágil que as relações indicam um contexto onde é cada um por si, o que se reflete em pequenos hábitos do nosso cotidiano. A alta taxa de renovação nos dois níveis máximos do legislativo a cada eleição pode ser considerado algo que reflete nossa insatisfação, mas para cobrar dos representantes uma postura assertiva e de fato independente dessas nocivas relações de troca é preciso apurar nosso senso de coletividade para que deixemos de aplicar o clientelismo, antes de tudo, no nosso dia a dia.

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