A culpa é de São Pedro. E do PT!

Semanas atrás, voltando do aeroporto o taxista comenta, preocupado, que a água estava intermitente no seu bairro há três dias. Respondi que como já haviam passado as eleições muito mais gente ia ter esse tipo de problema em todo o estado, mas ele foi enfático ao dizer que esse problema não tem nada a ver com política e que a culpa é da estiagem. Geraldo Alckmin foi reeleito no primeiro turno para o quarto mandato, além de dois como vice, e não deveria ser surpresa tamanha simpatia do eleitor para com o governador. Blindado por assessorias de imprensa de peso como o Estadão, Folha, e até pelo carioca Globo, a reputação do tucano parece ser inabalável, a prova de falência do sistema educacional estadual, a prova de apatia diante da maior crise hídrica da história, até mesmo a prova de abusos autoritários de um grupo de extermínio disfarçado de polícia militar. Se os patriotas e meritocratas não assumem a responsibilidade quando algo de negativo lhe afeta diretamente, atribuindo tudo que é ruim ao governo federal, o mesmo deve ser feito em todos os níveis para que se tenha o mínimo de coerência.

O governo paulista aperfeiçoou os experimentos socioeconômicos realizados em todo o Brasil entre 1995 e 2003 de forma tão eficiente que só diante do desespero da falta d’água é que foi constatada a privatização de quase metade do capital acionário da Sabesp. Assim, é perfeitamente compreensível que a companhia dê prioridade a distribuição de seu lucro em forma de dividendos, não investindo nas obras de infraestrutura pelas quais poderíamos fazer o uso do aquífero guarani, segundo maior do mundo, que ocupa mais de 155.000 km² do subsolo do Estado de São Paulo. Não é ilegítimo nem condenável quando uma estatal abre parte de seu capital de forma que ainda permanece sob controle público, no entanto a justificativa da Sabesp ao fazê-lo, em 1994, era de que seriam viabilizados mais recursos para investir no tratamento de esgoto e distribuição d’água. Dez anos depois, o governo e a Sabesp foram advertidos por especialistas sobre a necessidade de novas fontes, diminuindo a dependência do sistema cantareira e preservando áreas de manaciais que estão hoje condenadas. Em 2012 a própria estatal reconheceu o risco de desabastecimento. Nanhuma obra foi feita.

Mesmo depois de o governador socilitar pessoalmente junto à união recursos para o investimento em obras que deveriam ter sido iniciadas há mais de uma década, a presidência da Agência Nacional de Águas (ANA) afirma que São Paulo precisará de um dilúvio para que o sistema cantareira volte a ter níveis aceitáveis, e o governo entendeu a declaração como uma ofensa política direta, afirmando que o presidente da ANA dissemina um pânico sobre o qual o estado não tem responsabilidade. Ora se São Paulo realmente é um exemplo de saneamento, educação e transporte públicos, sem mencionar outros setores que vão maravilhosamente bem como as santas casas, então realmente não há o que ser cobrado nem pelos eleitores nem pela imprensa a partir do quarto mandato de Alckmin. Cheguei em casa e nesse mesmo dia, um vizinho tentou puxar assunto também sobre a crise hídrica de forma que a culpa acabava sendo do governo federal. Dei aquele sorriso amarelo e me despedi. Ele deve ter ido lavar o quintal ou o carro com uma mangueira.

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