A moda do orgulho hipster

É curioso notar alguns grupos entusiastas de uma determinada manifestação cultural menos acessível se ache de certa forma superior porque acredita que seu gosto é mais refinado, destacando-o dos demais que não compartilham os mesmos interesses. Ser indie ou hipster, como muitos outros termos importados, virou algo deturpado e por aqui é sinônimo de status. A rigor, a produção artística que forma um culto em torno de si já é um incentivador para a criar um circuito independente no qual experiências são trocadas e debates informais fomentam a busca pelo novo. Mesmo assim, muito do que não interessa ou do que é pouco difundido para a maioria dos brasileiros foi, é e continuará sendo popular em outros países, algo ignorado por aqueles que acreditam fazer parte de uma vanguarda messiânica. Pior é que, quando tomam ciência de que muitos outros gostam da mesma banda ou mesmo filme b, os moderninhos passam a taxar os artistas como vendidos ou mercenários. Lembro quando muitos deixaram de gostar de Jack Kerouac simplesmente porque foi feito um filme ruim sobre ele, e é comum também esse desgosto com bandas de origem alternativa que atingem um bom patamar comercial, e claro, com franquias de blockbusters cujo sucesso é avassalador e até predatório, como no caso do filme que ocupou mais da metade dos cinemas do país mês passado.

Não sou hipócrita o suficiente para defender a cultura nacional a qualquer custo, como vários colegas costumam fazer. Primeiro porque quando os militares largaram o osso já havíamos sido totalmente idiotizados por uma indústria de entretenimento que não oferece quase nada em termos de conteúdo educativo, segundo porque a miscelânea cultural faz parte de um processo fundamental de evolução coletiva, terceiro porque minha formação musical é completamente importada, e quarto porque muitos blockbusters são divertidos e atendem totalmente a necessidade daqueles que buscam num filme algo nada complexo que os faça esquecer da rotina por algumas horas. Buscar o lucro de forma insandecida e por vezes imprudente é o que, felizmente, vem levando a queda na circulação dos principais periódicos e na audiência de programas “jornalísticos” do Brasil, porém, a partir dessa decadência, surge com cada vez mais força uma mídia alternativa, portanto o cidadão passa a ter cada vez mais o direito de escolher. Se no jornalismo essa tendência é quase irreversível, no meio cultural ainda sofremos com a falta de opções, e quando se tem contato com algo que foge a regra o expectador, ouvinte ou leitor é sim privilegiado por ter acesso a uma arte mais restrita, mas não tem o direito de esnobar aqueles que não a conhecem. Deveriam recomendar, incentivando o outro a fazer o mesmo.

O governo tenta como pode, proporcionando a Lei de Incentivo à Cultura ou regulando a ocupação de salas pelo mesmo filme, por exemplo, mas consolidar o acesso a alternativas para um escasso meio cultural não deve ser o tipo de responsabilidade atribuída exclusivamente ao estado. Um estímulo apenas por meio de repasses fiscais representa uma grande ajuda, mas não é o suficiente para estabelecer a diversidade que buscamos. A sobrecarga é tamanha que muitos projetos, por melhores que sejam, não conseguem patrocínio com o respaldo da lei mesmo quando alguns contemplados poderiam prescindir desses recursos dados os estreitos vínculos de seus realizadores com grandes impérios de comunicação. Nesse caso, torna-se indispensável o estabelecimento de uma fronteira, mesmo que tênue, entre o apelativo que entretém e o desesperado que é lixo. O falso requinte de sofisticação naquilo que é pouco difundido, além de ser a raíz da incômoda soberba hipster, apenas contribui para a manutenção de um sistema ao qual estamos bem acostumados, onde poucos deitam, rolam, e, principalmente, enrolam todo o resto.

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