Cinco décadas e o mesmo desafio

Vou tentar não ser óbvio e até mesmo não citar nomes para que se tire suas próprias conclusões sobre quais são os dois presidentes que, apesar da abismo histórico que os separam, tem desafios muito semelhantes. Assumir a presidência da república com grandes expectativas de popularidade após líderes que tiveram os maiores índices de popularidade da história é sem dúvida desgastante. A semelhanca vai até certo ponto porque uma das figuras deste comparativo foi desposta. A outra não foi, apesar de alguns tentarem, mas teve um governo turbulento, marcado por richas entre sua própria base aliada. O resultado disso foi a escolha de um dos legislativos mais conservadores de todos os tempos. Antes da formalizacação de suas candidaturas e consequente vitória, os líderes receberam uma sondagem inesperada de autoridades predecessoras que buscavam a continuidade de seus governos, e mesmo assim esse par nunca deixou de sofrer a pressão passional de uma imprensa muitas vezes alimentada pela difusão de discursos totalitários.

Outra notável correspondência entre essas personalidades separadas pelo tempo é que os dois tinham como prioridade reformas profundas sobre as quais setores tanto de esquerda radical quanto de direita ultraconservadora concordam que deveriam e devem acontecer, porém não houve nem há consenso sobre como realizá-las. O que também chama atenção é também a necessidade vital de, em tempos de austeridade e mudancas forçadas, ter que negociar com conservadores, alguns até mesmo radicais, como um falecido ex-governador carioca cuja a alcunha era de “derrubador de presidentes”. Estabelecer esse tipo de diálogo nunca é fácil e até hoje medidas que vêm de alguma forma a dificultar os ricos de ficarem mais ricos é taxada como uma guinada ao comunismo. O medo é instigado, em grande parte pelo Estado de S. Paulo e pel’O Globo, até diante do sucesso dos programas de transferência de renda ou de leis trabalhistas que hoje são exemplo para o resto do mundo. Ainda com essas adversidades, os presidentes lembrados aqui não tiveram uma oposição com força suficiente para peitá-los constitucional ou legalmente, porém, o que viria depois para esse tal de João seria o exílio, morte, e a exumação de seu corpo para que, décadas depois, ele finalmete pudesse ter um funeral digno de chefe de estado.

Os dois faziam parte de uma esquerda não tão radical quanto a ala mais extrema de seus partidos. Quando declarada por esses gestores nossa independência dos interesses econômicos estadunidenses como parte de uma política externa pacífica, ultraliberais desesperados falavam, como ainda falam, em bolivarianismo, o que é no mínimo um exagero haja vista que as remessas de lucro para o exterior batem recordes, além de banqueiros nunca terem lucrado tanto na história do Brasil. Seus resultados revelam que tais personalidades são figuras lembradas pelo combate a extrema miséria, sem desprezar, claro, que seus mandatos foram também marcados por crises políticas sem precedentes, seja por escândalos de corrupção ou por conspirações antidemocráticas. Por esses motivos, é possível ter certeza de que, embora separados por mais de meio século e por constituições diferentes, os dois presidentes tiveram e tem desafios tão iguais que é válido se questionar se o segundo está fadado ao desencanto do primeiro, ainda que por forca de oligarcas inescrupulosos.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s