O respaldo do anonimato

Foi compreensível, mas também um pouco exagerada a reação de alguns sobre o último texto do colega Barroso, em que ele se opõe a privatização do sistema carcerário como solução para resolver sua prolongada crise. Os críticos sequer leram o artigo, o que deveria ser esperado, e mesmo assim condenaram a abordagem se limitando a xingar, dizendo que, se quiser defender bandido é para adotar um e outros clichês dignos de uma âncora do SBT. Curioso que, em tempos de acesso tão fácil a informacão, muitos se preocupam cada vez menos com o embasamento de seus raciocínios, emitindo comentários injuriosos formados por um histórico preconceituoso. A desinformacão tanto de parte da classe média tradicionalista quanto da parte de alguns simpatizantes de ideais normalmente ligadas a esquerda parece gerar uma radicalização que tende a polarizar as discussões políticas. Dessa forma, podemos entender que é pragmaticamente impreciso o raciocínio de acreditar que o duelo esquerda versus direita, visões pouquíssimo debatidas e muito distorcidas no Brasil, é de fato uma luta do bem contra o mal, como Ariano Suassuna certa vez definiu. O argumento do excelente autor pode ser questionado.

O tipo de prejulgamento que podemos observar está entranhado em ambas as posições de forma que a intolerância torna impossível reconhecer virtudes ou boa argumentação em seus antagonistas. Enquanto um grupo continuar tratando o outro de forma apenas desdenhosa nunca haverá um debate produtivo, e sim um ciclo de diminuições por meio de ofensas pessoais… Briga, e nunca conversa. Num país violento, por exemplo, é corriqueiro transformar dor e desejo de vinganca em visão política. Ao longo de nossa história aprendemos que radicalizações nunca contribuiram para a civilidade democrática, e na verdade sempre prestaram um grande desservico a coletividade. As estruturas autoritárias não foram totalmente extintas pela transicão governamental dos anos 80, portanto, justo quando a democracia deveria mostrar maturidade após 7 eleicões sem sérias constestações de resultados, surgem manifestações que defendem a supressão de liberdades básicas em qualquer regime participativo.

Individualizar e debater se a idéia é produtiva ou não parece ser uma forma didática de despertar educação política em um povo indeciso e desinformado, mas o estabelecimento de conceitos equivocados e preconceituosos em relação a idéias vagamente refletidas tende a resultar num comportamento intransigente, e sim, é saudável mudar de opinião a medida que temos mais acesso a informação. Eventos como o massacre no Charles Hebdo ou a atuacão da polícia militar para dispersar manifestantes são evidências de que radicalizar não resulta em nada além violência. Abordagens passionais e apologias ao ódio disseminadas por apresentadores oportunistas não passam pelo filtro de de um povo que considera a grande imprensa um exemplo de imparcialidade, sendo então cada vez mais comum encontrar quem entenda o Islã como uma religião terrorista e pronto, ou que todos os manifestantes são vândalos. Os exageros não se restringem apenas a conservadores incomodados por um governo que consideram de esquerda, mas também a muitos que, a despeito de se definirem como progressistas, assumem posições extremas elaboradas por estereótipos. Ter que ouvir não é necessariamente ter que concordar, mas aparentemente foi-se o tempo em que divergências podiam ser resolvidas de forma educada.

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