O carpe diem tupiniquim

É possível encontrar, mesmo que em caráter excepcional, escolas públicas onde o ambiente é minimamente propício ao despertar crítico. Há muitos anos, fiz parte de meu ensino médio em uma dessas. Mesmo assim, a despeito da boa vontade da maioria dos professores desvalorizados e da lenta universalização do ensino superior, é inexistente uma parceria entre todos os níveis executivos para estabelecer parâmetros em um ensino que estimula a crítica por meio da criatividade, algo, a rigor, quase utópico em função do sombrio cenário polítco no qual nos encontramos. O relatório publicado pelo Credit Suisse sobre os padrões de consumo em mercados emergentes indica que mais da metade dos brasileiros que ganham até mil reais por mês pretende comprar algum produto de grife em breve. Tais resultados indicam que um crescimento baseado no consumo e o plano de formar um cidadão minimamente qualificado para um sub-emprego, por meio do qual ele possa compor a base de uma pirâmide socioeconômica, são parte de um sistema defasado em que o Estado, mesmo com uma estrutura decente, ignora a educação. São Paulo. E seria ilusão acreditar que apenas os pobres fazem parte deste ciclo de idiotização pela futilidade. Dessa forma, faz-se necessário dar eco à pieguice de que nossa sociedade não é a única, mas traduz um grande exemplo de engrenagem social onde apenas o “ter” é valorizado.

Exaltar excessões tem sido a fórmula para o sucesso de Luciano Huck à Rodrigo Faro, mas também funciona como o combustível do encanto pelos contos de fadas modernos, com ênfase em histórias de jogadores de futebol que eram miseráveis, cantores com infância difícil e etc. A eterna espera por aquilo que “o destino pode reservar a qualquer um” parece ser amenizada pela ostentação de pagar o preço que sinaliza status e um estilo de vida despreocupado. Curioso. Quando o tal do cidadão de bem, tão defendido por fascistas fiscalizadores da rosca alheia, se depara com qualquer coisa que lhe pareça minimamente negativa ele logo se prontifica a xingar e culpar um “governo comunista”, mas quando compra um carro alienado e financiado a juros extorsivos é mérito seu e somente seu, prontificando-se a exibir uma atitude que é mescla de arrogância, orgulho e ignorância. No país descrito pelas injúrias destes indivíduos imaculados e exemplares não há motivo para essa toda essa soberba por parte de uma “classe média que sofre”.

O individualismo é sem dúvida instrínseco a natureza humana assim como a de qualquer outro animal, mas o homem, como um ser pensante, deve ser regrado para que não haja uma distorção no que diz respeito ao entendimento do ambiente que o molda. Nas redes sociais, esse faz-de-conta foi elevado a um novo patamar. Todos são felizes e realizados, mas o jovem que vive a transição entre a educação secundária e uma eventual graduação demonstra também uma apatia assustadora. Não é possível traçar seu perfil detalhado sem uma persquisa pragmática e dentro de rigorosos padrões acadêmicos, mas existem tipos bem definidos que, segundo eles mesmos, querem “viver o presente, ser feliz, ter uma casa bem daora (sic)” escutando música altíssima em carros modificados. Ninguém está ficando mais novo, e grande parcela desses bon vivants que não desenvolve discernimento crítico perpetuam um sistema de exploração onde o explorado não tem tempo para se dar conta disso, sonhando inconscientemente em se tornar o explorador. Até mesmo em ambientes de renome acadêmico é possível perceber um preocupação maior em manter as aparências do que com o autodesenvolvimento. A capacidade reflexiva do brasileiro pára na adolescência, e o resultado não poderia ser outro: somos um povo fútil.

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