Militância fundamentalista

Num passado não muito distante era unanimidade concordar quando alguém comentava algo do tipo “o brasileiro não lê”. Um desavisado poderia pensar que o brasileiro lê poucos livros, mas compensa em jornais e revistas, sempre por dentro dos últimos fatos. A velocidade em meio a qual vivemos inaugurou uma era em que apenas o título, no máximo a linha fina, já é o suficiente para instigar a formação de uma opinião completa. Como a tendência parece ser negativa e progressiva, imagino que os jornais daqui a poucas décadas, se sobreviverem a internet, terão matérias de no máximo 140 caracteres. Esse resumo da racionalização, instigado também pela tecnologia digital, na maioria dos casos têm levado a um maniqueísmo exagerado e cada vez mais aplicado a política. Nossa discreta evolucão democrática finalmente nos levou a entender que problemas concretos são resolvidos com ações políticas, mas a grande influência metafísica sobre tais conceitos nos faz crer que conflitos ideológicos são uma batalha entre o bem e o mal.

Nesse cenário é possível encontrar ora jovens conservadores linha-dura, ora jovens que se dizem de esquerda muito entusiasmados com a possibilidade de uma militância virtual e apenas virtual, representando dois posicionamentos muitas vezes embasados por lugares-comuns que se converteram em dogmas políticos por parte de quem lê apenas o título e se sente dono da verdade. Se uma pessoa se manifesta contra o aborto por meio de fotos em redes sociais, por exemplo, essa pessoa é automaticamente rotulada como narcisista e carente por uma opositora que se diz feminsita de esquerda, quando a última não percebe que tudo que fez foi diminuir seu desafeto por meio de preconceito. A superficialidade crítica se resume a esquerda atacar e diminuir pessoalmente a direita, e vice-versa, num tedioso ciclo de clichês radicais.

Resumir política a um duelo bipolar é aceitar passivamente as terríveis limitações impostas pelo nosso cenário que, apesar de contar com uma infinidade de partidos e legisladores, está longe de uma eventual abertura na qual seria estabelecido um simples diálogo, que é, em tese, a essência do pacto democrata. Com milhares de seguidores, páginas e perfis ideológicos no facebook ou twitter defendem revoluções violentas ou golpes militares, e são exemplos bem sucedidos daquilo que militantes anônimos fazem uso para formar suas opiniões. Os administradores, aproveitando as facilidades de comunicação, tornaram-se de fato formadores de opinião extremista, mesmo que para um grupo irrisório perto do alcance da imprensa tradicional, mas o que não os impede de compartilhar frases aleatórias sem fundamento ou totalmente fora de contexto. Mais uma vez, o tal do resumo da racionalizacão. Seria proveitoso se houvesse uma geração dividida entre vertentes conservadoras e progressistas, mesmo que em alguns debates alguém ficasse exaltado e baixasse o nível, mas aparentemente o que define a orientação política de muita gente são memes e títulos de matérias.

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