O errado, o desacertado e seus chavões

De que forma as generalizações endossadas pela grande imprensa contribuem para o apoio da opinião pública ao autoritarismo sob desculpa de que a construção do futuro deve buscar referências no passado? Muitas. Primeiro, a simplificação de imagens sociais reforcada pela superficialidade que a midia dispensa a temas carentes de análise detalhada parece refletir na pouca profundidade de debates politicos. Ainda que a participação do brasileiro nestes mesmo debates tenha aumentado de forma relevante nos ultimos anos, os envolvidos raramente possuem embasamento teórico-agumentativo, pois não têm contato com informações que vão além de uma reportagem de três ou quatro minutos no horário nobre ou, quando muito, a leitura de uma matéria veiculada em um dos cinco periódicos de maior circulação no país. A carência de embasamento cultural resulta em campo fértil para a propagação de idéias difusas sob o pretexto de que o novo, por definição, tem de obrigatoriamente se desvencilhar de paradigmas estabelecidos pelo atual contexto político.

O paradoxo gera outro questionamento pertinente: como aceitar uma nova alternativa política construída por personagens que transitam há décadas em meio ao mais do mesmo? A resposta é tão desanimadora quanto a esperança de uma reforma política antes de 2019, pois a opinião pública não dispõe de um conceito pragmaticamente fundamentado sobre o que o novo representa, já que, como tantos outras, esta é mais uma generalização baseada no “pior do que está não pode ficar”, ou seja, qualquer novidade seria equivocadamente considerada uma boa alternativa ao caos, como Michel Temer na presidência, por exemplo. Por outro lado, quando autoproclamados progressistas aceitam o maniqueísmo estabelecido pela superficialização da política, o resultado não faz nada além de contribuir para uma hostilidade estabelecida sobre a exagerada polarização entre esquerda e direita na qual ambos os lados acreditam ser o “bem”, sendo que impasses deste tipo foram há muito superados em democracias verdadeiramente plenas onde o verdadeiro mal a ser combatido reside em estereótipos difundidos especialmente por parte da imprensa e militantes fundamentalistas, como alguns petistas e tucanos bem fazem.

Ao mesmo tempo em que muitos conservadores rotulam como comunistas qualquer cidadão que defenda minimamente a redução da desigualdade, certos esquerdistas empedernidos assumem a premissa de que todo o conservador possui tendencias antidemocráticas, ou seja, existem exageros infantis em ambas as partes. Generalizações deste tipo mostram o quanto estereótipos contribuem para o vício que temos em atribuir a culpa de algo que nos desegrada a quem, obviamente, nos desagrada, como os comunistas, reacionários, coxinhas ou petralhas. Esquecemos que somos nós quem elegemos os mesmo senhores a quem nossos estereótipos e xingamentos são direcionados. Enquanto um buscar diminuir o outro pelo simples prazer da ofensa ou recusar diálogo para manter a convicção de que está certo e pronto, o impasse deve continuar refletindo no meio político, cópia cada vez mais idêntica daqueles que os elegeram, ao menos em termos de ignorância e irredutibilidade. É possível divergir sem ódio, caro Petralha e caro Coxinha, cabe aos envolvidos, porém, buscar o mínimo de base teórica para fundamentar seu próprio discurso. Um bom debate.

Um comentário

  1. Para se debater é preciso não ter faltado às aulas de História; de ler mais que orelhas de livros de literatura de ficção ou de bons ensaios sobre a conformação da história; não ser imbecil de chifre – o pior dos imbecis!

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