A psicanálise existencial de “Ninfomaníaca”

Por Rafael Kafka*

Um dos filmes mais densos vistos por mim no ano passado foi sem dúvida alguma “Ninfomaníaca”, de Lars Von Trier. Em torno da história central, o relato de uma moça que não consegue parar de sentir desejo sexual, há uma série de questões psicológicas e existenciais muito importantes. Ambos os cenários, o filme e as sessões de terapia, mostram que numa relação de diálogo psicológico não somente o que é dito, mas como é transmitido em seus silêncios, reiterações e ritmo de como deve ser levado em conta.

Neste sentido, o diálogo entre Joe e Seligman surge como mais do que uma revelação para saciar a curiosidade do segundo, mas também como uma procura por encontro consigo mesma da parte da protagonista. Algo presente na terapia é justamente este uso das palavras para se criar a sensação de coerência em um ser. De certa maneira, isto só é possível dentro de uma relação na qual os dois seres envolvidos ouvem um ao outro de modo franco e da forma mais neutra possível, o que explica por que não devemos criar elos com aqueles que estão a nos analisar. O relato de Joe é dividido em capítulos e não segue uma ordem cronológica rígida. Apesar de a precisão temporal ser presente, o enredo permite algumas idas e vindas do presente para o futuro ou para o passado. Por conta disso, acompanhamos Joe em três planos temporais: a infância, a juventude e o começo da meia-idade, e em todos eles a questão sexual se mostra como algo constantemente perturbador em sua vida, já que não se sente presa afetivamente a ninguém, exceto, ao que tudo indica, à figura do pai.

Podemos dizer ser a temática do filme é a história de uma mulher que sempre exigiu demais da realidade. Esta exigência parece ganhar sentido maior dentro do campo sexual, no qual ela irá mergulhar das mais diversas formas. Joe procura explorar o seu corpo e dos outros como se quisesse extrair do sexo mais do que o prazer orgasmástico. Em dado momento do filme, porém, nem mesmo o mais carnal do prazer ela terá e passará então a se ver como uma pessoa doente e necessitada de tratamento.

Joe, contido, um belo dia percebe-se como alguém não doente e sim portadora de uma condição especial que não a tornava pior do que aquelas mulheres com quem ela se reunia em busca de uma solução para seu aparente problema. A questão principal ali era o fato de aqueles seres viverem uma eterna mentira em suas vidas amorosas, nas quais seus desejos encontravam-se submissos ao pensamento masculino e às convenções do patriarcado.

Mais do que o conjunto de relatos de Joe sobre suas aventuras e desventura sexuais, e mais do que seu envolvimento em um casamento falho e no crime organizado, o que interessa em Ninfomaníaca é a procura incessante pelo aniquilamento de um desejo que mais cedo ou mais voltará à tona. A vontade leva o ser humano sempre a exigir mais da vida e por nunca poder saciá-la concretamente ele sofre. Além disso, vemos como Joe é impedida de viver plenamente o seu intenso desejo pelas convenções sociais, as quais levarão a moça a assumir um modelo de relação monogâmico e castrador de suas vontades e causador de infelicidade tanto em si quanto em seu parceiro, incapaz de prover o que ela precisa.

A ponto mais mais incisivo do filme talvez seja justamente o modelo de relacionamento baseado em dois polos: um masculino e um feminino. Fica claro que ele é insuficiente no sentido de satisfazer a seres que tanto querem a liberdade quanto a estabilidade de um relacionamento. Além disso, o julgamento sofrido por Joe ao abrir mão de sua família em busca de sensações mais profundas em seu ser dificilmente seriam ouvidos por um homem na mesma posição, os quais historicamente sempre tiveram o direito de romper os limites familiares para saciar seus desejos.

E é contra a censura masculina contra o desejo feminino que se volta o ato de violência final de Joe. Um ato que antes se voltaria contra um ser amado, mas por resistência inconsciente, volta-se contra um desconhecido com enorme potencial de estuprador. Por sinal, o inconsciente no decorrer do filme se mostra com bastante força, mesmo sem as cenas surrealistas de outro bom filme de Lars, Anticristo. Podemos perceber o inconsciente nas cenas envolvendo a protagonista e seu pai, que certamente estão entre os momentos mais tocantes e coloridos do filme. Ninfomaníaca, enfim, se revela uma ótima provocação para pensarmos acerca do quão castradora nossa sociedade é para com o gênero feminino.

*Rafael é professor de literatura.

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