Uma reunião comum

Por Paulo Arce*

A reunião foi marcada para começar às 09:00. Os assuntos em pauta eram da mais alta gravidade, de tal forma que foi convocada toda a hierarquia superior da repartição, umas oito pessoas. E o Marco. Marco não fazia parte dessa alta hierarquia, pelo contrário, era como ele mesmo se classificava, “um peão no tabuleiro”. Para azar dele, no entanto, era um peão eficiente, daqueles que dá mate em rei e come rainha.

Naquele dia, entretanto, ele não ia comer ninguém, pelo contrário seria ele próprio o banquete. Às nove em ponto estava ele lá, sozinho com sua agenda na sala de reuniões. Os demais foram chegando em horários variados: 09:13, 09:34, 09:45…o último chegou às dez. Deu-se, assim, início à reunião. Primeiro assunto: o cachorro da Marta que morreu. Pobre bulldog francês, era tão amigo, tão leal, tão…. Gerou muita comoção o assunto, Marta ensaiou um marejar de olhos, Diana solidarizou-se e fez um breve discurso de apoio e nisso eram dez e quinze.

E como nessas horas um assunto puxa o outro, o falecido cão da Marta fez o Soares se lembrar de que o médico lhe havia restringido o consumo de gorduras (problema de coração) e que se não levasse o conselho a sério, quem se juntava ao pobre cão era ele. Então não podia mais comer as coxinhas da dona Cassandra (a senhora que passava às terças e quintas na repartição vendendo doces e salgadinhos), nem a bisteca frita que sua mãe fazia, muito menos o torresmo do bar do Pepeu. E assim, com essa conversa gastronômica, Cida lembrou-se do joelho de porco que o marido preparava e que estava lhe dando água na boca só de pensar.

Mas, sabe, só se falava de carne. Coxinhas, bisteca, torresmo, joelho de porco, muita carne e muito sangue. E como a Suzana era vegetariana fez um protesto bem humorado contra o assunto. Ocorre que o Cortez era um velho conservador e sem noção, e achou que o comentário foi uma provocação e assim iniciou-se um intenso debate ideológico em torno do vegetarianismo, que para Cortez era uma idiotice, e então isso ofendeu a Suzana que teve que defender-se. Pereira tentou intervir para apaziguar, mas confundiu vegetarianismo com veganismo, e ainda disse que as condições de abate de animais, por outro lado, são desumanas e, assim, não houve acordo. No fim o Cortez e a Suzana queriam bater no Pereira e teve que haver um constrangimento geral para que aquilo tivesse fim. O Marco ficava calado pensando em que argumentos técnicos poderia apresentar para cada uma das pautas da reunião.

Portanto, eram onze horas e estavam todos enfim preparados para começar a reunião que era importantíssima e, acima de tudo, urgente. Mas esperem, por favor, só mais um minuto. A Letícia estava com alguma moléstia renal e, por recomendação médica, “não podia segurar xixi”. Então foi ao banheiro e isto abriu todo um novo leque de possibilidades: de um lado Neusa lançou assunto fúnebre, falando de como sua tia-avó morreu de falência renal porque segurava xixi, então “Letícia estava mais do que certa de ir ao banheiro”. De outro lado o Pereira aproveitou para falar dos resultados do brasileirão do final de semana, que lhe haviam sido extremamente favoráveis no bolão da repartição e que agora estava em terceiro lugar geral: podia já sonhar com o primeiro prêmio (que por sinal não era pouca coisa, já que quase todos participavam das apostas).

Alguns minutos depois Letícia voltou para a mesa de reuniões. Eram 11:45. Ela pediu desculpas pela demora já que no meio do caminho encontrou amiga de longa data, e depois o diretor seccional chamou-a para aviso de grande importância. Então, finalmente, Soares, que era a mais alta patente sentada à mesa, deu início à reunião:

– Vamos à primeira pauta: orçamento e finanças. Vejam, não é exatamente este o resultado que eu gostaria de apresentar a vocês, mas… – e nesse momento a fala de Soares é interrompida pelo seu celular:

– Sim, entendo. Aham, sim, isso é péssimo. Acho que não. Acho que sim. Talvez. Ok, é pra já.

Soares desligou o celular com uma nítida preocupação na fronte. Estava bastante transtornado.

– Pessoal, me perdoem, tenho que sair. Não poderei ficar na reunião, o diretor está me chamando para uma reunião urgentíssima no gabinete dele.

Frustração geral! Não poderia haver reunião sem o Soares. Ele era o senhor da pauta no momento, ele era a mais alta patente. Não poderia haver a reunião sem ele! Não poderia haver nada sem ele! Que pena! Que lástima! A Neusa, que é assessora do Soares sugeriu, então, que aquela reunião fosse reagendada para data mais próxima possível. Todos pegaram suas agendinhas e foram aos poucos chegando a comum acordo sobre a próxima data. O Marco, peão valente, foi o primeiro a lançar sua disponibilidade: amanhã, primeira hora. Mas amanhã primeira hora não dava para a Suzana. Nem para o Maurício.

– Bem, eu posso qualquer dia, qualquer horário, de preferência de manhã. – disse um decidido Marco.

Agendas para lá, agendas para cá, finalmente saiu a nova agenda: quarta-feira da semana que vem. Nisso, todos concordam, e como já é meio dia, vão todos fechando suas agendas e se levantando. No entanto, de súbito, são interrompidos pelo peão valente:

– Olha, me desculpem. Esqueci de mencionar. Na quarta que vem é o único dia que não posso. É aniversário da minha filha e eu já combinei um abono nesse dia.

Assim, tiveram todos que se sentar novamente e reabrir as agendas. “Maldito Marco, me está atrasando o almoço”, foi o que pensaram quase todos. Após uma segunda rodada de busca de nova data, definiu-se que a reunião seria realizada na segunda terça-feira, do mês seguinte (é que alguns iam tirar férias, outros tinham dentista marcado, fora as outras reuniões etc etc etc).

– Olhem, uma reunião de tamanha urgência como esta, ficar marcada para daqui a quase um mês é uma total falta de comprometimento. Sabe Marco, acho que nestes casos, cada um deve se doar um pouquinho que seja. – disse uma moralizante Neusa. Pereira não demora em completar:

– E, além disso, já são meio dia e quinze e preciso buscar meu filho na escola. Esse tipo de inconveniência deve ser dito logo no início da reunião, por uma questão profissional, sabe? Senão acaba afetando os colegas. Podemos ir, ou o Marco tem mais alguma coisa?

Saem todos da sala para almoçar, buscar os filhos, ver o amante, fazer hora no shopping… O Marco, não. O Marco vai organizar a pauta da próxima reunião que começa às 13h.

*Paulo é professor universitário e funcionário público.

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