O desvelar da morte em “Melancolia”

Rafael Kafka

Mesmo com um discurso mais leve se comparado aos clássicos AnticristoNinfomaníaca, de Lars Von Trier, a temática das relações amorosas em Melancolia se mostra presente por meio do choque de consciências presente na primeira parte do filme, denominada Justine. O filme está entre os melhores de Lars por conta da sutileza, o que também vemos nos outros dois já mencionados. Diante de nós temos um contexto de relacionamento burguês, cheio de ilusões e conflitos, visto pela perspectiva de uma pessoa desequilibrada que no dia mais feliz de sua vida começa a se sentir sufocada da mesma forma como Simone de Beauvoir descreve em seu ensaio O Segundo Sexo.

Vale lembrar que neste ensaio, em seu segundo tomo, Simone dedica um imenso capítulo a questão do casamento, sentido máximo da existência de praticamente todas as mulheres até pouco tempo em nossa história ocidental. O matrimônio era visto como momento de felicidade aparente e de desespero profundo, por representar o terror absoluto de uma existência presa ao outro e a uma rotina sem autonomia alguma. No casamento, a vida da mulher deixa de ser sua e passa a ser do marido, dos filhos e do público que passa a cobrar a felicidade do casal. Por conta disso, eram comuns crises de histeria e neuroses em mulheres jovens prestes a casar, o que de certa forma explica o clima estranho que permeia no casamento de Justine e suas cenas as quais beiram o surrealismo.

A narrativa entrecortada, mostrando conflitos familiares sem um começo certo, cria um efeito psicológico interessante, pois somos levados ao estupor diante de um grupo de pessoas que não consegue se comunicar entre si de forma plena. Ao lado das câmeras que tremem em certos momentos, os cortes abruptos dessa narrativa ajudam a criar um belo clima de tensão existencial e psicológica, dando a impressão de que esses dois recursos somados à bela fotografia do filme e à música deram uma maior profundidade ao enredo do longa mesmo não tendo os longos diálogos existenciais e as cenas realistas dos outros dois famosos filmes de Lars.

A segunda parte é centrada em Claire e na aproximação do planeta Melancholia. Ao contrário da irmã Justine, Claire vive uma existência familiar mais estável e se sente feliz com ela. A chega do planeta é vista pela personagem como algo amedrontador e logo seu ser entra em desespero, mesmo com as tentativas de John, seu marido, em acalmá-la. Em contraponto, Justine passa a observar a aproximação da morte como algo indiferente. Aos poucos, o alívio toma conta de si, o que nos leva a inferir a imensidão de desgosto pela vida. A morte marca o horizonte de expectativa das duas irmãs, mas de formas diferentes: uma a vê como perda de uma vida bela e plenamente vivida enquanto a outra encara o fim de sua experiência temporal como uma fuga de todo sofrimento que toma conta de si.

Neste sentido, questões psicológicas importantes se unem à exposição do ser-para-a-morte de Heidegger no entendimento deste filme. A experiência temporal afeta o modo como a morte é experimentada no seu desvelar, o que demonstra que mesmo a experiência final e absoluta da existência é marcada pela intencionalidade humana em seu devir. E é encarando a morte que as duas personagens, Justine e Claire, ao lado do filho desta última, protagonizam um dos finais mais poéticos e angustiantes de todos os filmes já vistos por mim, por mostrar ali, no limiar entra a consciência e seu aniquilamento, o quão de humanidade há em nós em nossos momentos mais reveladores.

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