Um sonho brasileiro

Paulo Arce

Naquela noite o goró seria na casa do Dani pois na noite anterior havia sido na do Marco e na outra antes daquela eles tinham enchido a cara no bar do Pepeu. O costume deles era esse, cada vez na casa de um e de vez em quando no bar do Pepeu. O Marco chegou com uma dúzia de long necks e o Dani entrou com uma garrafa de Jack Daniels que seria o grand finale daquela noite.

Como sempre, o Dani começou a encher o saco com suas conversas sobre o trabalho, que ele tinha se ferrado não sei com quem porque deixou de entregar o relatório tal e etc, toda essa chatice de quem tem um trabalho desses bem tradicionais, em que se fica o dia todo sentado na frente de um computador, tem horários de entrada e saída, etc. Não que o Marco não tivesse, pelo contrário, tinha e se ferrava bastante, mas ele meio que evitava o assunto quando estava no goró.

– Olha Dani, para com essa merda que está contando. Acho até que você já me contou essa história ontem. Desencana de falar de trabalho. Porque não fala de putaria? Prefiro quando você fala de putaria.

– Ah cara, eu to trabalhando tanto, e tá me enchendo tanto o saco que acho que estou ficando meio broxa. Só consigo trabalhar e encher a cara, que é mais fácil do que ficar de pau duro.

– Cacete Dani, que merda. De que serve trabalhar e ganhar dinheiro e ter um pau frouxo? Mas enfim… Pare com esse papo sobre o escritório. Põe um som aí.

O Dani andava meio broxa de tanto trabalhar, mas ainda tinha um gosto musical de primeira. Colocou Creedence, Born on the Bayou, combinava muito com goró. O som preencheu o ambiente e deu outro ar pra a noite. O Marco puxou um cigarro de palha, acendeu, saboreou. Tomou um belo gole da cerveja. Dani abriu outra garrafa, pediu um trago do palheiro. Ficaram um tempo sem falar nada até o Marco romper o silêncio:

– Cara, vou te contar um sonho que tive essa noite. Muito sem noção. Sabe aqueles sonhos que você tem quando é criança, sem pé nem cabeça, que mistura um pouco de tudo e no final é non sense mas perturbador?

– Hummm….tipo aqueles filmes dos anos 80, que acontece de tudo um pouco e no fim é só pra ter alguma ação?

– O que? Como assim?…sei lá! Que porra de anos 80? Cara, não…

– Então fala logo…

– Talvez tenha um pouco a ver com política. Tá afim?

“Tá afim?” Essa pergunta do Marco pro Dani era essencial. Política era um assunto recorrente nas conversas deles. Era um assunto muito caro aos dois e viviam discutindo política. Vira e mexe as conversas começavam ou acabavam em política. Tinham visões levemente distintas sobre essas questões. Certa vez, em época de eleições, brigaram feio e ficaram muito tempo sem se falar, mas no fundo concordavam em muita coisa. Então, dado o histórico, convinha saber se o Dani (que era mais exaltado) estava no clima para falar de política.

– To afim, ué. Mas rapaz, você teve um sonho, e esse sonho tem a ver com política? É isso mesmo?

– Sim, é isso mesmo.

– Deve ter sido uma merda de sonho.

– Foi. Me passa a garrafa de Jack.

Marco colocou três pedras de gelo no copo, completou o resto com whisky, tomou uns goles. Começou a contar seu sonho:

– Cheguei em uma casa enorme. Na verdade, acho que só a frente da casa era enorme. Dentro ela tinha uma sala só. Mas a frente era grande e tinha duas portas enormes. A pintura da frente era verde e amarela, e estava toda descascada. As portas eram pintadas cada uma de um jeito: a da direita era azul e amarela, a da esquerda era vermelha e branca.

– Tá, eu já sei onde você quer chegar. Mas vai… – retrucou Dani enquanto acendia um cigarro e tomava um gole de whisky.

– Pois é, daí entrei na casa. Não que eu realmente quisesse, mas simplesmente fui e entrei. Acho que faz parte do sonho, aquelas coisas que acontecem contra sua vontade.

– Tá. E você entrou por qual porta?

– Olha, na verdade, por nenhuma das duas. Tenho impressão que atravessei pelo meio, ou essa parte do sonho não aconteceu ou se apagou da minha memória. Sei lá, ocorre que – e nesse instante Dani interrompe:

– Ah rapaz! Então você atravessou pelo meio? É um cagalhão mesmo! Sempre em cima do muro né! Porque você tem sempre que ser um pela saco sem lado?

– Foda-se Dani, me passa uma cerva. Então… eu tava falando que entrei na casa. E me deparei com uma cena desconcertante. Era uma sala pequena, aconchegante, com uma iluminação meio íntima. Uma coisa de casal, sabe? E quem estava lá, no goró?

– Humm…

– Lula e FHC!!

Dani engasgou com a cerveja que estava engolindo, saiu um pouco pelo nariz. Virou pro Marco:

– Cara, para com isso. Você tá inventando. Não é possível um sonho de merda desses. Acho que eu ia vomitar nos dois.

– Pois é. Enfim, os dois estavam no maior papo, e no maior goró. Estavam tomando umas biritas pesadas, cachaça da braba. O Lula ficava falando alto, contando umas merdas e o FHC tava com a cara toda vermelha, suando, dando altas gargalhadas. Era como ver dois grandes amigos no goró ferrado. Acho que se davam melhor do que eu e você. Pra ser sincero não me lembro muito bem o assunto deles, mas sei que estavam tirando uma com a cara do Serra.

– É justo – replicou Dani. – Mas enfim, não sei porque isso seria non sense. Pra mim é bem tranquilo. É até meio deja vu. Sabe aquela foto clássica do Lula e do FHC entregando panfletos juntos? Não é segredo de ninguém que os dois se davam.

– Certo, mas não para por aí o sonho. Meu palheiro acabou. Me vê um Marlboro fedorento desses. Olha, eles tavam lá sacaneando com o Serra até não poder mais, só que de repente se olharam de um jeito esquisito. Pararam de falar e dar risada. Começaram a beber pesado. E tinha aquele olhar entre eles. De repente, o FHC vira e estande a mão bem devagarzinho na direção do Lula. E o Lula estendeu a mão dele na direção do FHC. E eles se deram as mãozinhas. E ficaram se olhando…

– Te juro que vou vomitar na sua cara…

– Então…daí vem o pior. O olhar foi ficando mais intenso. Uma pulsação começou a surgir, uma coisa no ar. Cara, nem sei bem como descrever. Mas tava rolando uma tensão forte. Eles foram chegando perto, com aquele olhar cada vez mais profundo e…tascaram um beijão na boca!

– Ahhh, mas que merda Marco! Seu subconsciente é uma lata de lixo!

– E não para por aí. Ficaram dando um beijão e depois olharam pra mim, se entreolharam de novo, e falaram juntos: “vamos lá mostrar nossos meninos pra ele?” E daí desaparecemos os três daquela sala e aparecemos no meio de uma avenida imensa. Nessa avenida tinham duas aglomerações de pessoas, um grupo vermelho, com faixas socialistas, comunistas, essas coisas vermelhas; e um grupo verde e amarelo, com camisetas da seleção, caras pintadas e banners em inglês.

– Então vocês foram parar no meio de uma manifestação?

– É, algo do tipo, mas estava mais pra uma briga marcada entre duas facções. No começo os dois grupos ficavam gritando palavras de ordem, mas em pouco tempo o único objetivo era a ofensa mútua. Enquanto as pessoas ficavam se xingando, os dois ficavam olhando e dando risada: “Olha Lú como eles fazem direitinho! É do jeito que agente tinha falado!”; “É Fer, como agente sempre fala, eles não entenderam nada, mas desse jeito dá pra ir levando”. E ficaram lá tirando sarro dos dois grupos querendo se matar. “Olha Fer, aquele cara de vermelho com a bandeira de martelo e foice!” “Olha Lú, aquele cara de verde e amarelo tirando foto com a PM!”. E ficaram muito tempo nessa, flutuando acima da avenida, vendo tudo de camarote, de mãos dadas, e dando risada do tumulto. Me passe uma cerveja vai…

– Serve whisky?

– Serve. Então, de repente, os dois grupos chegaram ao auge da exaltação. E começaram a marchar em direção ao outro grupo. Era uma guerra civil no meio da avenida. E nisso, os dois lá de cima, flutuando, viram e falam juntos: “bom, acho que agora é hora de partir hein?” E assim, foram se distanciando, se afastando de mãos dadas no horizonte.

– E você? Ficou lá no meio?

– Exato, fiquei no meio dos dois grupos. Me largaram lá. E começou a ficar feia a coisa, era pedrada de um lado, bandeirada de outro, depois a PM começou a descer a borracha, e eu comecei a gritar pros dois que estavam indo embora, no horizonte, “e eu, seus merdas, vão me largar aqui!?”

– E eles?

– Lá do alto me responderam “ah, tem você né? Olha filho, você pode voltar pro trabalho, seu vagabundo! hahahahahhahahahahah” E daí o despertador começou a tocar. O resto você sabe, todo dia é igual. Acordei, fui trabalhar, etc..agora estamos aqui. Me dá um cigarro.

– Cara, esse teu sonho foi uma porcaria.

– Sim, sei lá, devo estar com essas coisas no subconsciente.

– Beleza, vamos terminar essa garrafa? Vai servindo, eu vou trocar o som.

Dani trocou o som, colocou The Doors, When the music is over. Os dois ficaram bebendo até altas horas, o sonho descrito gerou um bom debate sobre a política brasuca. Terminaram toda a bebida que levaram. A noite estava amena e a música ecoava leve ao fundo…

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