5 filmes para refletir o jornalismo

Pedro Correa

Em tempos nos quais Kim Kataguiri é colunista do jornal de maior tiragem entre todos os países lusófonos, o debate sobre a verdadeira função do jornalismo nunca foi tão oportuno e, se os próprios periódicos não têm interesse em uma reflexão acerca de um assunto tão fundamental, a cultura popular pode ser então o meio que vem proporcionar idéias a respeito. Honoré de Balzac, em seu clássico “Ilusões Perdidas”, detalha com desprezo os bastidores do jornalismo parisiense e sua necessidade em exercer o máximo de influência possível sobre quem quer que estivesse no poder, já que durante a então recente revolução e guerras napoleônicas as instituições francesas sofreram abalos permanentes e particularmente assustadores para monarquistas, como o lendário autor. Balzac conclui sua longa análise narrativa afirmando que “um jornal não é mais feito para esclarecer, mas para agradar as opiniões”. Quase duzentos anos depois, os exemplos são incontáveis, mas obviamente existem casos em que nossa tênue esperança num jornalismo sério e responsável pode ser fortalecida, como em episódios tão emblemáticos que os “furos” não foram apenas imortalizados devido aos serviços prestados a sociedade, mas também pelo cinema. Preparamos uma lista com cinco filmes – todos baseados em histórias reais – que revelam o quão decisivo é o papel da imprensa. Clicando nos títulos você assiste aos trailers.

Shattered Glass – O preço de uma verdade

Começamos com uma lição sobre o que não deve ser feito por um jornalista. O filme conta a trajetória de Stephen Glass, que fraudou artigos de 1995 a 1998 na revista The New Republic. Glass era tido como uma estrela em ascenção, muito querido entre seus colegas que até mesmo o defenderam quando surgiram as primeiras provas de que os artigos eram inventados. Adam Penenberg, então na Forbes, desconfiou do texto “Hack Heaven” quando não conseguiu verificar a existência nem do jovem hacker descrito no artigo nem da empresa que o teria contratado. Foi só o começo, e uma investigação posterior ao afastamento de Glass concluiu que 27 das 43 publicações eram falsas.

Todos os homens do presidente

Caso mais conhecido e de fato dos mais influentes da história, mostra que mesmo uma fonte anônima pode definir os rumos de uma investigação jornalística. Como todos sabem, o resultado foi “apenas” a renúncia do presidente dos Estados Unidos. Independente de suas ideologias, Bob Woodward e Carl Bernstein exerceram seu ofício com maestria, elevando o jornalismo investigativo a um novo patamar ao provar a ligação da casa branca com as escutas que seriam plantadas na sede do Comitê Nacional Democrata. Caso o empossado Gerald Ford não tivesse concedido anistia, Nixon poderia ter sofrido impeachment e ter sido preso.

O informante

Uma cláusula de confidencialidade pode realmente impedir alguém de mostrar que seu empregador é responsável por milhares de mortes e que deu falso testemunho ao congresso? Sim, mas quando Jeffrey Wigand, ex vice presidente da Brown & Williamson, é abordado por Lowell Bergman, produtor de 60 minutos, da rede CBS, o executivo decide revelar que seu antigo empregador manipulava intencionalmente componentes do tabaco para aumentar a concentração de nicotina em seus cigarros. Wigand e sua família são constantemente ameacados pelos gigantes da indústria do fumo, mas o delator finalmente encontra Richard Scruggs, advogado que usa sua experiência para intimá-lo a depor judicialmente, anulando a cláusula de confidencialidade e mudando para sempre a relação dos tabagistas com seus consumidores.

O clube do bang bang

Baseado no livro homônimo, o “clube” era composto por Greg Marinovich, Robin Comley, Kevin Carter, Ken Oosterbroek e João Silva, que cobriram a turbulenta e sangrenta transição política na África do Sul entre 1990 e 1994, mostrando que a história acontece independente de presenciá-la ou não, e os vencedores do pulitzer Marinovitch e Carter provaram que nem sempre a melhor forma de contá-la é produzir um relato tomando um café em uma confortável redação com ar condicionado. O clube era assim chamado exatamente devido ao risco que seus “membros” estavam dispostos a correr. Sabe aquela foto do abutre espreitando uma crianca prestes a morrer de fome no deserto? Pois é.

Spotlight

As vezes fazer o certo significa ir contra tudo e contra todos. Formado por quatro repórteres do Boston Globe, jornal investigativo há mais tempo em circulação nos Estados Unidos, o time “Spotlight” revela uma ampla rede de abusos sexuais cometidos por padres que contavam com um esquema institucionalizado dentro do alto escalão da própria igreja católica para acobertar seus crimes. Não obstante, advogados locais e empresários locais também faziam vista grossa. A equipe revelou que apenas na cidade de Boston quase 90 padres haviam abusado de criancas; meses depois os quatro ganharam o Pulizer de 2003 na categoria “serviços públicos”.

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