A crônica dos amores líquidos em “Ela”

Rafael Kafka

Assim como o Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, que aborda a artificialidade de nosso desejo em apagar memórias ligadas a acontecimentos desagradáveis e que não deixam de fazer parte de nossa essência exatamente por já terem ocorrido, Ela é mais uma tentativa de Spike Jonze em ligar a temática amorosa à da tecnologia. Assim, mais uma vez Jonze procura demonstrar a vontade humana de tudo moldar e controlar por meio dos recursos tecnológicos, a fim promover uma melhor propagação de seu ego nas coisas e fatos da vida.

Nesse sentido, há em Ela um sentimento de distopia: a tecnologia deveria nos libertar, mas nos prende em nós mesmos. Uma crítica similar foi feita de forma diferente, mas igualmente poética, pelo bom filme argentino Medianeras. Há um quê de Solaris também neste bom longa de Jonze, pelas situações conscientemente alimentadas até um ponto em que se torna verdades absolutas e sem nascimento preciso. O ser perde a noção de que aquilo é ilusão e usa sua má-fé, no sentido sartreano do termo, para viver uma realidade alternativa.

Se Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças lida com o desejo de apagar as memórias ruins¸ Ela lida com o desejo humano de idealizar as relações humanas. O primeiro lida com um passado que é prova viva do nosso fracasso em moldar o mundo ao nosso bem querer. Já o segundo lida com a nossa negação de um presente que insiste em nos mostrar esse mesmo fracasso numa realidade em que o romantismo é desejado somente em sua positividade sublime, mas não aceita as dificuldades de ligação com o outro. Estamos tão fechados em nós mesmos que se nos relacionamos com alguém desejamos fugir dos momentos desagradáveis os quais evidenciam o choque de consciências.

Ela retrata um desejo de romantismo sem comprometimento, algo evidenciado já na primeira cena do filme, na qual Theodore, uma espécie de José Costa do excelente Budapeste de Chico Buarque, aparece realizando seu ofício: escrever cartas de amor por e para outras pessoas. Em um mundo artificial, usamos pensamentos de outras para termos o que dizer, para fingirmos sentir algo em uma existência vazia.

Em sua vida solitária, Theodore adquire Samantha, um sistema operacional com inteligência artificial, por quem logo se apaixona. Em um momento de conflito com a ex esposa, contudo, Theodore recebe em cheio a verdade de sua vontade de fugir do das relações concretas com todas as suas dificuldades. Ele na verdade deseja um idílio e por isso seu amor só pode ser vivido com uma alma sem corpo. Theodore foge dos momentos terríveis de conflito e por isso o seu amor é focado apenas em seu apego a si mesmo.

Mas o amor precisa de corpo para viver e em uma cena muito interessante do ponto de vista existencial, Theodore não consegue ter uma relação sexual com uma mulher a fazer-se de corpo de Samantha. Tal cena reflete bem o paradoxo de quem precisa se relacionar, se comunicar, fugindo, porém, da comunicação humana com toda sua intrincada teia.

Podemos dizer que Ela é uma crônica dos amores líquidos de nossa modernidade tardia: queremos amar algo sem saber o que vem a ser esse algo e afundamo-nos, desse jeito, em subterfúgios e vazios pessoais. Infelizmente, a tecnologia parece nos ter encerrado nesse terrível egocentrismo que se caracteriza pelo temor horrível de enxergar o outro em sua plenitude. Um egocentrismo marcado pelo medo de perdermos nossa liberdade, mas que nos leva a ficarmos presos em nós mesmos, nossas manias e nossas ilusões.

 

Rafael Kafka

Professor de língua portuguesa, redação e literatura desde 2010, em escolas particulares, projeto voluntário e aulas particulares. Graduado em 2011 pela primeira turma de Letras com Habilitação em Língua Portuguesa do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará e em breve estudante de Letras com Habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Federal do Pará. Escrevo de forma amadora, no sentido profissional e apaixonado do termo, poemas, contos, resenhas e crônicas e publico de vez em quando nesta e em outras redes sociais. Atualmente tenho estudado demais os impactos das mídias sociais nos aspectos comunicacionais e existenciais do ser humano ocidental e pós-moderno. Fora isso, no tempo livre, faço questão de ler um bom romance, ver animes e séries, além de filmes legais, e conversar acerca de questões ligadas à vida humana, podendo ser uma boa partida de futebol ou mesmo a resenha de um bom filme ou livro.

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