O lançamento

Livraria lotada. Um alemão pequenino, com bigodinho de português, começa a falar para uma multidão de 20 pessoas. Algumas meninas tentam tocar seus pelos labiais, enquanto intelectuais com um caderninho e caneta anotam tudo.

Ele fala sobre a igreja. Grita sobre como a fé é uma enganação; tira sarro dos padres e, para surpresa de todos, faz um paralelo entre Fábio de Mello e um ator hollywoodiano, dizendo que aquele era um exemplo claro de tudo que tinha de podre nas entranhas do cristianismo.

Duas meninas – que ainda tentavam pegar no bigodinho sexy do alemão-, começaram a se olhar de maneira incrédula; estavam bobas por um intelectual europeu ter pesquisado sobre o mais novo padre pop do antigo Estados Unidos do Brasil.

Ninguém ouvia direito o que o cara falava. Quer dizer, tinham uns dois três estudantes do curso de filosofia que estavam lá para aprender alguma coisa. Mas o resto… bom, o resto queria tirar fotos e postar nas redes sociais. Queriam mostrar que faziam parte de um ato anti-imperialista; contra os princípios da igreja; contra os hipócritas capitalistas. Lógico que toda essa raiva era demonstrada com imagens registradas em celulares de última geração, comprados no Shopping JK.

Depois da palestra, o alemão sentou para autografar seu livro. Uma das meninas apontou para o seu bigode na capa. Ficou duas horas tentando fazer com que ele assinasse seu nome bem no meio dos pelos. Ele ficou sem graça, mas atendeu ao pedido.

Um barulho ensurdecedor: BUM! BUM!BUM! Bombas artesanais eram arremessadas contra a Livraria, quebrando a porta de entrada. Centenas de pessoas entraram com cartazes, bíblias, fotos do Padre Fabio de Melo.

A fila se desfez na hora. Assustado, o alemão se escondeu atrás de uma estante. Seus fãs dispersaram. Alguns fugiram do local. Os filósofos com bloquinho tentaram confrontar os manifestantes. Em vão! Eles eram mais de 100.

Com olhos raivosos e uma bíblia na mão direita, o líder do ato derrubou todos os exemplares de cima da mesa; subiu na mesma e bradou: “Viva Jesus Cristo!”

Seria assim, o lançamento de O Anticristo, de Friedrich Nietsche, em 2018.

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