A pinga e a bola

“E cá estou eu outra vez, tropeçando na minha sombra”, diriam os roqueiros do Velhas Virgens, ao ver aquele ser – que no caso era eu mesmo-, quase morto no sofá revirando os canais da TV por assinatura, em mais um domingo típico.

Em meio à toda pornografia da televisão brasileira, eis que aparece um senhor bem vestido, com sotaque britânico (é impressionante como o sotaque britânico faz com que qualquer frase se transforme em algo sério e imponente), falando sobre a evolução da cachaça.

Resumindo a ópera: ele falou que a bebida mais popular do Brasil passou do botequim para os bistrôs mais chiques; da escória para o glamour; do copo de plástico para o copinho de vidro talhado por anjos.

Além disso, o britânico com sotaque aveludado, que fazia com que qualquer cão vira-lata do terceiro mundo, prestasse mais atenção na sua oratória, dizia que a nossa velha pinga tinha se transformado em um artigo de luxo da culinária mundial. Pasmem, parcos leitores: segundo ele, nossa bebida pode ser comparada ao Vinho Francês ou ao Whisky Escocês.

Todos sabem que a pinga que servem no boteco do Antônio em Apucarana não é a mesma que esse estrangeiro exalta. A tendência, aliás, é que cada vez coloquem mais merda na pinga do seu Antônio, enquanto enchem de aromas e fragrâncias a dose servida em copos esculpidos na churrascaria brasileira de Paris.

Depois de ver o documentário sobre a Cachaça, fui para o laptop ouvir alguma música. Enquanto isso, meu cérebro começou a fazer uma analogia louca entre cachaça e futebol. Me lembrei da seguinte manchete: “Alexandre Kalil diz que futebol não é coisa para pobres”.

O ex-presidente do Atlético MG e atual prefeito de Belo Horizonte, dizia ser a favor dos ingressos com preços abusivos e que o futebol era um espetáculo para quem tinha dinheiro.

Desliguei o rock que estava embalando meu restinho de domingo e fiquei refletindo um pouco: “Será que além da cachaça, nosso povo também vai perder o futebol? Será que assim como a pinga do bar do Antônio, vamos ver o povo tendo que assistir jogos da segunda e terceira divisão por não terem recursos para ir ao estádio?”;

Acendi um cigarro. Ponderei os fatos. Nessa comparação louca entre futebol e pinga, o futebol já têm copos esculpidos com fragrâncias sendo servidos no exterior há tempos: Neymar, Gabriel Jesus, Diego Costa, Coutinho e Thiago Silva, são copos de uma cachaça única que servimos de bandeja para o futebol europeu.

No futebol, a gente já vive da pinga do Bar do Antônio. O problema é que se os ingressos ficarem cada vez mais caros, os únicos que vão poder degustar essa bebida insossa são os torcedores “cappuccino” que vão bebe-la como se fosse uma dose aromatizada, servida na churrascaria brasileira de Paris.

 

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