A “deforma” da previdência

Previdência é um assunto sobre o qual ninguém tem a verdade absoluta, mas pérolas como “chega do privilégio de poucos” fazem com que a campanha publicitária do governo federal extrapole os limites do ridículo. Simplificar um pacto social por meio de lugares comuns simplesmente reforça o quanto o executivo não está disposto a debater o assunto com a sociedade e, não obstante a ilegitimidade dos não eleitos, parte da base aliada é composta por parlamentares que recebem aposentadoria acima do teto. Para aqueles que defendem a reforma tal como foi apresentada, a previdência é um problema exclusivamente financeiro e dispensa uma avaliação social voltada para mesorregiões. Objetivamente, o número de contribuintes ativos diminuiu enquanto a expectativa de vida aumentou, mas existem outros fatores a serem levados em conta.

É evidente que o regime de repartição hoje não atende as necessidades demográficas de um país tão heterogênio e a lógica de incidir quase que exclusivamente sobre folha de pagamento estimula a informalidade nas relações trabalhistas. Ainda assim, em vez de debater eventuais opções sobre um novo regime, como o de capitalização, no qual o fundo estatal seria administrado por executivos profissionais, selecionados por mérito, porém demissíveis em caso de má gestão, Temer e sua quadrilha preferem concentrar seus esforços em torno do buraco sem fim da dívida publica: não basta ter atrelado, constitucionalmente e por 20 anos, investimentos estruturais a inflação, mas a previsão orçamentária indica que a Desvinculação de Receitas da União (DRU) em 2018 será de R$123,9 bilhões.

Implicados em retumbantes esquemas de corrupção, sem sinalizar qualquer intenção de transformar o regime previdenciário e seu questionável déficit em um fundo superavitário; desmoralizado, impopular e ilegítimo, o governo federal dispõe de pouco, quase nada, além da esperança de que sua propaganda mentirosa convença pequenos grupos de uma super elite intelectual, as mentes brilhantes que costumam bradar verdades irrefutáveis como “a globo é comunista, nazismo é de esquerda” ou “na ditadura não havia corrupção”. Mesmo parlamentares imprestáveis do poderoso “centrão” temem as implicações eleitorais caso votem a favor da PEC, afinal, a cada quatro anos é hora de fingir que se prestou algum serviço público. Infelizmente, porém, ainda que haja alguma indignação diante de mais uma farsa, não escutamos panelas, não vemos patos amarelos gigantes ou manifestantes com camisetas da CBF nas ruas. Deve estar tudo bem, afinal, “política não se discute”, pelo menos não respeitosamente.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s