Resistência e discurso político em “Pantera Negra”

“Pantera Negra” é prova de que há possibilidade de se fazer cinema de entretenimento com boa dosagem de crítica social. E, mais interessante, não uma crítica social boba e feita para lacrar, mas bastante consistente e que remete a diálogos políticos como os que marcaram as disputas ideológicas de dois ícones, como Martin Luther King e Malcom X, este defensor de uma ação mais direta e até mesmo violenta, aquele mais diplomático e apelando para a boa consciência branca.

O grande dilema do filme é justamente o isolamento de uma comunidade africana hiper avançada que se eximiu do envolvimento com outras sociedades, inclusive as irmãs que caíram sob o jugo europeu humanista. A justificativa para tanto seria o temor de que o poderio tecnológico de Wakanda desencadeasse guerras e exploração indevida do mineral que é a fonte de toda a prosperidade do reino fictício.

Porém, em uma lição já propagada pelos existencialistas de cunho mais sartreano, não lutar é uma forma de participar do conflito e quando Erik, descendente de um “traidor” de Wakanda, decide invadir o país para reclamar o trono, fica evidente que o isolamento do país acaba se mostrando uma conduta de fuga diante do contexto de opressão sofrido pela comunidade negra ao redor do mundo.

Erik chega mesmo a utilizar-se da ambição de um explorador para obter o sucesso de seu plano. Para este renegado, assim como para seu pai, as armas de Wakanda são uma forma de garantir à população negra ao redor do mundo formas de resistência contra líderes que a subjugam. Nesse sentido, o filme acaba mostrando como mesmo dentro de uma militância dos direitos humanos há discordâncias, desníveis e diferentes matizes.

Há quem pregue a cooperação, como King, ou quem pregue a ação direta e violenta, como X. De certa forma, T’Chala opta por uma ação mais similar com de King ao final do filme, quando percebe não haver a possibilidade mais de se manter isento diante do caos étnico vivido por sua comunidade.

De certa forma, o filme como um todo resgata tradições africanas na forma de muito colorido e dança e fica evidente o grande número de marcas dessa cultura na cultura ocidental colonizadora. O discurso na ONU na cena pós-créditos parece indicar toda a metalinguagem do filme condensada em uma única cena, na qual o povo de Wakanda mostrará como as comunidades africanas em geral, mas em especial esta com alto poderio tecnológico, têm a colaborar para o progresso mundial.

Vale ressaltar que o humanismo europeu foi justificativa científica e filosófica para a dominação dos povos africanos, tidos como bárbaros com seus rituais dançantes e provocativos aos olhos colonizadores.

Detalhe interessante no filme é a forte presença das mulheres seja no âmbito combativo ou da inteligência. Mesmo com fortes elementos patriarcais, com o rei sendo apenas uma figura masculina, as mulheres dentro do filme assumem profunda posição de protagonismo, muitas vezes garantindo com sua atitude a sobrevivência do regime. Tal detalhe ressalta algo importante no filme que é o discurso político identitário ligado a uma certa consciência consciência de classe.

Mas vale sempre ressaltar que Holywood aqui e outros grandes meios midiáticos não estão a fazer um favor didático para camadas populares mais sofridas. O seu discurso atual é um discurso que reflete novas demandas produzidas e provocadas por movimentos sociais que se uniram em forma de resistência e cada vez mais invadem espaços tidos como hegemonicamente causianos e masculinos. O cinema cada vez mais se mostra como um arte aberta ao clamor de mudança.

Todavia, não podemos nos contentar em ver filmes provocativos e que gerem em nós um sentimento de consciência tranquila. Ver tais filmes devem nos convidar a debater as causas das opressões expostas ali e buscar formas de mudanças sociais e discursivas, inclusive utilizando esses filmes em práticas pedagógicas e críticas engajadas.

Além de um roteiro bom que peca apenas pelo excesso de didatismo em alguns momentos, “Pantera Negra” tem uma bela produção, com belas tomadas da savana africana, o uso muito bem feito de aspectos linguísticos e efeitos especiais muito bem desenhados, sem contar as belas cenas de luta e ação, ponto central de todo filme do gênero. É uma experiência estética interessante por utilizar muito bem convenções do gênero dos filmes de super heroi sem cair, todavia, naquele velho dicotomismo maniqueísta do bem contra o mal.

Aqui há apenas visões políticas colocadas em jogo e na arena do combate físico e discursivo, mostrando que o racismo quase sempre é uma questão de exploração econômica do outro e que somente por ações diretas de resistência, de cooperação e de mudança de pensamento pode ser um fato superado em algum momento de nossa história.

Rafael Kafka

Professor de língua portuguesa, redação e literatura desde 2010, em escolas particulares, projeto voluntário e aulas particulares. Graduado em 2011 pela primeira turma de Letras com Habilitação em Língua Portuguesa do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará e em breve estudante de Letras com Habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Federal do Pará. Escrevo de forma amadora, no sentido profissional e apaixonado do termo, poemas, contos, resenhas e crônicas e publico de vez em quando nesta e em outras redes sociais. Atualmente tenho estudado demais os impactos das mídias sociais nos aspectos comunicacionais e existenciais do ser humano ocidental e pós-moderno. Fora isso, no tempo livre, faço questão de ler um bom romance, ver animes e séries, além de filmes legais, e conversar acerca de questões ligadas à vida humana, podendo ser uma boa partida de futebol ou mesmo a resenha de um bom filme ou livro.

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