Será que Michelzinho jogará um interclasses?

Para muitas pessoas os torneios esportivos realizados no colégio não tinham muita importância. Afinal de contas, não se criou no antigo Estados Unidos do Brasil a mesma cultura esportiva dos americanos “raízes”, como podem dizer os mais moderninhos.

Mas, para esse escritor, que no colegial pesava noventa quilos, muitos deles devido à sua camada espeça de pelos espalhados pelo corpo fazendo com que o mesmo fosse algo, digamos, pouco atrativo para o publico feminino, aquele torneio tinha muita importância.

Não que eu fosse o Pelé balofo da escola. Longe disso. Eu era no futebol uma espécie de pivô bruto que se utilizava de sua massa corpórea para que os inimigos não pudessem alcançar a bola. Eu recebia a pelota de costas, girava e batia para o gol – muitas vezes durante o giro, o adversário caía no chão.

Era o único momento em que uma menina pronunciava o meu nome durante todo o ano: “Oliver, quanto está o jogo?”. “Quebra eles, Oliver”. “Golaço, Oliver”. Esse era o único momento em que a minha puberdade teve o prazer de ouvir o doce som aveludado de uma voz feminina.

Em um desses torneios, nós iriamos disputar uma final dificílima contra os caras do terceiro colegial. Não me lembro se estávamos no primeiro ou no segundo ano, mas, de qualquer modo, vencer os quase universitários era como ser Paolo Rossi na vitória italiana sobre o Brasil de 1982.

Antes da peleja final, um amigo nosso, que não tinha participado de todos os jogos, por estar doente, regressou e nos deu um fio de esperança a mais. Ele era o melhor jogador da nossa classe. Nós sabíamos que nosso professor de Educação Física era metido a árbitro FIFA quando organizava esses campeonatos. Hoje não o culpo. Era seu momento de glória. Naquele torneio, ele olhava cada detalhe; distribuía cartões amarelos e vermelhos feitos de cartolina e dava esporros homéricos em todos que tentavam ludibriá-lo.

No dia anterior, ele havia dito que podíamos ter apenas 7 jogadores ( 5 titulares e 2 reservas). Ninguém assinou papel nenhum. Era tudo no ‘boca a boca’. Portanto, as chances da gente conseguir colocar nosso “craque” em quadra eram satisfatórias.

Estava tendo um jogo da “Série B” (o campeonato do ginásio era chamado por nós do colegial de segunda divisão). Como sete cachorros babosos, chegamos sorrindo e bajulando o professor. Ele olhou ressabiado, sabendo que aquela demonstração de afeto gratuita não era gratuita de fato.

–         Fernando, o Bill estava doente e chegou hoje. Deixa ele jogar a final, por favor! – falou meu amigo em tom de súplica.

–         Não! Já conversamos ontem sobre isso. Só pode jogar quem estava aqui desde o começo.

–         Mas, ele estava doente, caramba! – retrucou meu outro amigo, um pouco mais ríspido.

Nessas horas, sempre tem um nerd metido a diplomata com uma carta na manga. A gente só tinha colocado aquele moleque no time porque ele havia feito todos os nossos trabalhos de física, safando-nos do recorde de seis recuperações seguidas. Confesso que foi a primeira e única vez que vi aquele ser magro, pálido e com óculos mais feios do que os do meu pai, falar daquele jeito:

–         Nós não assinamos contrato nenhum, portanto, você não pode fazer nada contra isso.

Lógico que depois da sua frase efusiva, ele começou a tremer e olhar para o professor como eu olharei para o meu pai assim que ele ler esse texto e me questionar o porquê eu debochei da estética de seus óculos.

–         Garotos, não importa o que vocês assinaram ou deixaram de assinar. Às vezes, ter palavra é melhor do que cumprir e assinar um papel. Isto se chama ética. E, vamos ser honestos: vocês não ganhariam do terceiro ano nem se eu estivesse em quadra.

Vendo Michel Temer protocolar a intervenção militar no Rio de Janeiro, proibir escola de samba de usar sua faixa presidencial, fico pensando em Michelzinho. Seu pobre filho que tem a babá mais cara do mundo e um palácio inteiro a seu despor: Será que ele jogará um interclasse na escola?

Um comentário

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s