A crônica do “perdão”

Era uma vez Olga, Princesa de Kiev. No começo do século X seu marido, Príncipe Igor, havia liderado diversas campanhas de sucesso contra invasores do Império Bizantino; a eficiência foi tanta que o principado expandia seu domínio territorial e, consequentemente, sua influência sobre tribos eslavas outrora independentes no extremo leste europeu. Buscando consolidar seu domínio, Igor decide voltar a cobrar impostos dos Drevlianos [1], um povoado cuja resistência ao controle de Kiev já era histórica. O Príncipe foi assassinado e seu primogênito era muito jovem para governar, assim Olga tornou-se regente.

Ora, como podemos aceitar que uma mulher sem marido comande nosso território?!” pensaram os Drevlianos. Pouco tempo após o atentado foram enviados emissários para organizar um casamento que uniria os dois povos, garantindo uma paz duradoura. Olga os recebeu com honras majestosas e assim que entraram em seu castelo os visitantes notaram uma enorme trincheira. Todos foram enterrados vivos.

A doce Princesa enviou então seus emissários para avisar que estava pronta para se casar com o líder dos Drevlianos, mas antes seria necessário que os pretendentes enviassem vinte dos seus mais nobres e distintos cidadãos a fim convencer o restante da desconfiada corte. Condições aceitas, e os nobres foram recebidos com ainda mais pompa do que os primeiros emissários. À delegação foram oferecidos banhos quentes nos famosos termas de Kiev; enquanto relaxavam, as portas foram trancadas e a sauna incendiada, queimando vivos todos os convidados.

Como se os “avisos” não fossem suficiente, Olga então anunciou um grande banquete que seria oferecido durante o sepultamento do Príncipe. Sem qualquer notícia sobre as emboscadas e crentes de que o casamento seria realizado apos o funeral, 5 mil Drevlianos compareceram a solenidade. A Princesa esperou até que todos os visitantes ficassem bêbados e ordenou um massacre, no que ficou conhecido como o open bar mais sangrento da história.

Aos Drevlianos restantes restou implorar por clemência, e a implacável Princesa se mostrou razoável em seus termos: cada casa deveria oferecer três pombos e três pardais, um alívio para os sobreviventes. Cumpridas as exigências, Olga ordenou que fosse amarrado na perna de cada ave um pequeno pedaço de pano embebido em enxofre. Ao fim do dia os pássaros foram libertados, grande parte sobrevoou as casas daqueles que os haviam cedido e soldados de Kiev incendiaram o vilarejo por completo.

Anos depois a gentil Princesa Olga foi a primeira governante do Rus [2] de Kiev a se converter ao cristianismo e a primeira eslava a ser canonizada pela igreja católica apostólica romana. É também considerada “santa” pela Igreja Greco-Católica Ucraniana e pela Igreja Ortodoxa.

Santa hipocrisia.

1. Tradução livre de “Древляни” ou “Dreviliani”
2. Tradução  de “Русь”, denominação arcáiica para “Ducado” que deu origem ao nome “Russia”

FONTE: Cronica de Nestor (História da primeira formação política do povo eslavo oriental)

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s