A conveniência do “eu avisei”

Pouco ou nada parece ter mudado. Ainda que a próxima eleição presidencial conte com o maior número de candidatos desde 1989, grande parte dos eleitores prefere restringir o que deveria ser uma discussão democrática a uma avaliação superficial de caráter; assim a velha polarização entre “PT e anti-PT” mais uma vez dá o tom. Não se debatem ideias, o personalismo como único critério impossibilita a avaliação pragmática de prioridades, fazendo com o que voto seja usado não para escolher aqueles cujas propostas são descritas de forma realista, e sim para evitar o candidato mais temido.

O mesmo povo que ignora as lições de sua própria história sob pretexto de que “não foi bem assim” ou “os historiadores constroem o relato a partir de uma visão comunista” ou simplesmente “ é a minha opinião” é o mesmo povo que está condenado a reviver seus tempos mais sombrios.

Após vinte e nove anos de democracia, muitos brasileiros ainda parecem não ter esquecido o “ame ou deixe-o”, como se maniqueísmo aplicado a política fosse resposta para questões tão complexas que devem ser avaliadas por muito mais do que dois lados. O descaso para com um assunto tão importante – talvez o mais importante – certamente é resultado de um misto de decepção, desesperança e revolta. Cabe ao eleitor se informar, mas quantas pessoas você conhece que tenham lido o plano de governo de pelo menos três candidatos?

Mesmo em plena era da informação falsa a principal referência acerca dos postulantes ao planalto continuam sendo memes. Será que um dia vamos nos levar a sério, parar de ofender quem pensa diferente e simplesmente ler? Não parece algo concebível em meio a mentes brilhantes que ensinam nazismo aos alemães e liberalismo a “The Economist”.

Se o cidadão de bem é aquele que acredita que quem não deve não teme, que quem não resistiu está vivo, direitos humanos para humanos direitos, aquele que questiona a legitimidade do processo democrático e cuja indignação se transformou em intransigência, cuja intransigência se transformou em ódio, então os indignados que não correspondem a essa postura fanática são os cidadãos do mal?

Pois bem, vejamos: seria o cidadão do mal aquele que defende diminuição da desigualdade social por meio de políticas de estado e proteção a minorias? Que acredita que direitos humanos independem de direita ou esquerda, e que basta ser humano para valorizá-los? Seria o cidadão do mal aquele que reconhece a dívida histórica do país para com a população negra? Talvez esse cidadão chegue ao “absurdo” de ser a favor da igualdade de gênero? Sim, o cidadão do mal acredita que a culpa do estupro e sempre do estuprador e que as mulheres devem ter sempre poder de decisão sobre o próprio corpo.

Esse “nós contra eles” nada acrescenta, mas é muito conveniente para quem prefere simplesmente estar certo do que avaliar diversas abordagens sobre o mesmo problema, ponderando prós e contras. “Eu avisei” ou “qualquer coisa menos tal” é o habitual consolo dos preguiçosos, e ainda chegamos ao ponto em que o preço a ser pago pode ser a própria democracia. Vote em quem quiser, mas leia o programa do seu candidato, leia o programa daquele que você mais rejeita, leia todos os os programas, busque motivos concretos e se articule porque, de gente passando vergonha, a internet, a televisão, sua cidade, seu estado, o país já está cheio.

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